Ásia

Próxima Parada: Travessia Turquia-Iraque

5 min de leitura

Visitar o Iraque foi uma decisão que me tomou anos de planejamento.

Não porque seja necessário, mas porque decidi entender de forma mais global toda a história da região antes de pisar por lá.

Assisti dezenas de videos, li livros, relatos de outros viajantes e o principal, fiquei conectado as informações que saiam na mídia, para saber como estava a atual situação na região.

O Iraque hoje, é dividido em duas partes:

No norte do país, existe uma região chamada Curdistão Iraquiano, e todo o restante é o que todos conhecemos como Iraque.

O curdistão é uma região extremamente pacífica, com pouquissimos registros de conflitos. Uma área que economicamente tem crescido bastante nos ultimos anos, e se desenvolvido de uma forma assustadoramente rápida.

Tudo que eu lia a respeito dessa área só me motivava a colocar a mochila nas costas e chegar lá o quanto antes. 

Devido a logistica do meu roteiro, decidi que após Rússia, faria meio que uma linha reta até o Iraque, e entraria no país por terra em uma viagem sozinho, o que para muitos amigos e conhecidos, era uma decisão de extremo risco, mas que eu optei que faria.

Eles estavam certos, e explicarei abaixo com detalhes como foi essa travessia da Turquia para o Iraque.

Atravessando da Túrquia para o Iraque por terra:

Eu havia parado na cidade de Van, no extremo leste Turco, por 10 dias, e após dias incriveis naquela área, comprei um ticket de onibus, de Van diretamente para a capital do Curdistao iraquiano, a cidade de Erbil ou também conhecida Hawler (em curdo). 

A empresa de onibus se chama Best Van, paguei algo em torno de 60 doláres pelo ticket.

A viagem estava prevista para durar 9 horas, mas devido a minha presença as coisas mudaram e se transformaram em 14 longas e cansativas horas.

Estrada, paisagens, clima, tudo estava perfeito nas primeiras 5 horas de viagem.

Quando nos aproximavamos da fronteira com a Síria, em questão de minutos parecia que estavamos entrando numa zona ativa de guerra: carros militares, soldados, tanques de guerra, helicopteros estavam por todos os lugares.

O onibus fez uma parada, e esse foi o primeiro check point, soldados do exército independente turco, PKK, entraram no onibus com metralhadoras e pediram por passaportes.

Quando me viram, pediram meu passaporte e imediatamente falaram para que eu descesse e pegasse minha mala.

Eu era o unico turista. Todos os outros eram turcos ou iraquianos.

Desci do onibus, peguei meu mochilão e levei para uma tenda onde estavam alguns soldados.

Todos portavam duas pistolas e uma metralhadora pendurada pelo pescoço.

Pediram para que eu abrisse a mochila, e uns 5 soldados me cercaram.

Como sempre faço, falei para que eles ficassem a vontade, e podiam abrir minha mochila. Sempre funciona, mas dessa vez falaram para que eu abrisse.

Levei uns 5 minutos pra tirar tudo que estava dentro, e colocar em uma sequencia lógica para recolocar tudo no lugar em seguida.

Quando terminei de tirar tudo, pediram para que eu deixasse tudo no chão, e voltasse para a tenda.

Mais soldados se aproximavam, e começaram a perguntar se eu estava com medo, eu falei que não, e eles falaram que não era pra ter medo, que eles seriam meus amigos.

Pergutaram de onde eu era e o que estava fazendo ali, falei que era do Brasil e estava ali como turista, eles repetiram a palavra turista e começaram a rir, fizeram mais 3 perguntas e perguntaram novamente de onde eu era, falei novamente Brasil, e assim foi, até que me perguntaram mais 3 vezes de qual país eu era intercalando com outras perguntas.

Eu fiz uma brincadeira falando para fazerem outro tipo de pergunta, pois o meu país era o Brasil e minha resposta não iria mudar. 

Chamaram o motorista, e nisso alguns passageiros desceram, todos aguardavam por mim, começaram a falar em turco e olhavam para mim com cara feia, o motorista começou a falar sem parar e todos o ouviam, mais soldados se aproximavam e nos cercavam, ninguem entendia o porque eu era turista naquela região.

Até que com alguns minutos de conversa entre o motorista e os soldados, um deles me pegou pelo braço e falou para que eu refizesse minha mala e a guardasse no onibus.

Rapidamente coloquei tudo no lugar, me despedi dos soldados, que me trouxeram agua gelada, e entrei no onibus, onde obviamente, todos olhavam para mim com cara fechada. Minha poltrona era na ultima fila, portanto quando digo todos olhavam para mim, posso dizer que era definitivamente todos, pois eu tive que passar por todos eles.

Mal sabiam que a brincadeira só estava começando.

Voltamos para a estrada, e em menos de 20 minutos, outro check point, preparei meu passaporte, e coloquei minha bota, e esperei para ver como seria a abordagem dessa vez.

Soldados com metralhadoras entraram no onibus, e mesma coisa, pediram para que eu descesse e pegasse minha bagagem.

E a história se repetiu, soldados armados, perguntas, risadas do turista, desfazer a mala, refazer a mala, voltar pro onibus, cara fechada de todo mundo, sentar novamente no meu lugar. 

Essa novela se repetiu por 6 vezes no total, até que cheguei em uma das ultimas cidades na Túrquia antes de atravessar pro Iraque.

O onibus faria uma parada ali, para que alguns passageiros descessem, portanto entramos na cidade, e fiquei chocado com o que vi.

Dois dias antes da minha passagem por ali, houve um ataque a esta pequena cidade, dava pra ver a marca das balas nas paredes das casas e marcas de explosao de bombas em varios lugares.

Uma cena que me marcou, foi ver um grande buraco feito por uma bomba na parede de uma casa, onde dava pra ver as pessoas andando do outro lado.

Tudo havia sido tão recente, que poucas pessoas estavam refazendo o que havia sido destruido.

Foi só ai que eu entendi o porque daquela segurança absurda, e também entendi que nem tudo que acontece, a midia internacional publica.

Aquele ataque, nao teve conhecimento mundial, e pelo que eu entendi, a divulgacao daquela tragedia onde varias pessoas morreram, ficou apenas ali pela Turquia.

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